Marcação a mercado: entenda as oscilações no Tesouro Direto

Entenda o que é marcação a mercado e descubra por que o preço do seu Tesouro Direto oscila mesmo sem risco de calote do governo.

Você compra um Tesouro IPCA+ pensando em segurança e, poucos meses depois, percebe que o valor da sua aplicação caiu no extrato do Tesouro Direto. Antes de entrar em pânico, vale entender um conceito essencial: a marcação a mercado. Ela explica por que títulos públicos considerados “seguros” podem oscilar de preço dia após dia, mesmo sem nenhum risco de calote por parte do governo.

Neste artigo, você vai entender o que é a marcação a mercado, por que ela existe, como ela afeta especificamente o Tesouro IPCA+ e o que fazer quando vir o preço do seu título subir ou descer na tela do aplicativo.

O que é marcação a mercado

Marcação a mercado é o processo pelo qual o preço de um título de renda fixa é atualizado diariamente, refletindo quanto esse papel valeria se fosse vendido naquele exato momento no mercado secundário. Em vez de considerar apenas a taxa contratada na compra, o sistema recalcula o valor do título com base nas taxas de juros praticadas no mercado hoje.

Esse mecanismo existe porque o Tesouro Direto permite que você venda seu título antes do vencimento, de volta para o Tesouro Nacional, a qualquer dia útil. Para que essa recompra seja justa tanto para quem vende quanto para quem compra, o preço precisa refletir as condições atuais de mercado, e não apenas a taxa que você travou lá atrás.

Em resumo, a marcação a mercado é o “preço de revenda” do seu título, atualizado todos os dias úteis. Ela não altera a regra do jogo caso você fique com o papel até o vencimento, mas pesa bastante caso você precise (ou queira) sair antes do prazo combinado.

Por que o preço do tesouro IPCA+ varia tanto

O Tesouro IPCA+ é um título que paga uma taxa prefixada somada à variação da inflação medida pelo IPCA. Essa combinação costuma ser vendida como uma forma de proteger o poder de compra, e de fato é, caso o investidor leve o papel até o fim. O problema aparece na marcação a mercado por causa do prazo longo desses títulos.

Quanto mais distante o vencimento, maior a sensibilidade do preço às mudanças nas expectativas de juros futuros. Isso acontece porque o valor do título é calculado trazendo a valor presente todos os pagamentos futuros, usando como referência a taxa de juros vigente no mercado. Quando essa taxa de referência sobe, o valor presente dos pagamentos futuros cai, e o preço do título despenca. Quando a taxa cai, o efeito é o oposto: o preço do título sobe.

É por isso que títulos como o Tesouro IPCA+ 2050 ou o Tesouro IPCA+ 2040, com vencimentos muito distantes, costumam oscilar mais do que um Tesouro IPCA+ 2032, que tem prazo mais curto. Quanto mais longo o horizonte, maior a volatilidade de preço no curto prazo.

Pense assim: quanto mais anos faltam até o vencimento, mais “tempo” o título tem para ser impactado por mudanças nas taxas de juros projetadas. Por isso, títulos longos sofrem mais com a marcação a mercado do que títulos curtos.

Marcação a mercado x marcação na curva

Existe outra forma de contabilizar um título de renda fixa: a marcação na curva. Nesse modelo, o valor do papel é calculado considerando que ele será mantido até o vencimento, ignorando as oscilações diárias do mercado secundário. A marcação na curva “suaviza” a trajetória do investimento, mostrando sempre uma evolução mais previsível.

No Tesouro Direto, porém, o extrato que você visualiza usa a marcação a mercado, não a marcação na curva. Essa escolha existe justamente porque o Tesouro Nacional garante recompra diária dos títulos, e o preço exibido precisa refletir o valor real de resgate antecipado, não uma projeção teórica.

Os fundos de investimento também marcam a mercado as suas carteiras, por regra da CVM, o que explica por que até fundos considerados conservadores podem ter cotas que oscilam, às vezes até ficando negativas em períodos curtos. Entender essa diferença ajuda a interpretar corretamente o extrato de qualquer aplicação de renda fixa, não só do Tesouro Direto.

CritérioMarcação a mercadoMarcação na curva
O que mostraPreço de venda hoje, no mercado secundárioValor projetado se o título for mantido até o vencimento
VolatilidadeAlta, especialmente em títulos longosBaixa, trajetória mais estável
Usada no Tesouro Direto?Sim, no extrato diárioNão é o padrão exibido ao investidor
Referência de taxaTaxas de juros atuais de mercadoTaxa contratada na compra do título

Exemplo prático de oscilação no preço

Imagine que você comprou um Tesouro IPCA+ com vencimento distante, travando uma taxa prefixada somada à inflação. Meses depois, o mercado passa a esperar que os juros futuros subam, talvez por conta de uma inflação mais resistente ou de uma mudança no cenário fiscal. Nesse caso, as novas emissões do mesmo título passam a ser vendidas com uma taxa mais atrativa do que a sua.

Como seu título antigo paga uma taxa menor do que a que o mercado está oferecendo agora, ele fica relativamente menos atraente para quem compraria hoje. Para compensar essa diferença, o preço do seu papel precisa cair, de forma que a rentabilidade implícita se equipare à taxa atual de mercado. É esse ajuste que você vê refletido como uma “perda” no seu extrato.

O movimento inverso também acontece. Se as expectativas de juros futuros caem, as novas emissões saem com taxas menores, e seu título antigo, que paga uma taxa mais alta, passa a valer mais no mercado secundário. O preço sobe, e o extrato mostra um ganho adicional além do que seria o rendimento contratado.

Esse vaivém de preços é natural e esperado em títulos atrelados à inflação com vencimentos longos. Ele só se torna um problema real caso você precise vender o título justamente no momento em que o preço está em baixa.

Como a Selic e a inflação influenciam esse movimento

A taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano, funciona como referência para boa parte das decisões de juros no mercado brasileiro. Quando o Comitê de Política Monetária sinaliza elevações ou cortes futuros, as taxas negociadas nos títulos públicos de longo prazo se ajustam quase imediatamente, mesmo antes de qualquer mudança efetiva na Selic.

O IPCA também entra na equação, já que o Tesouro IPCA+ paga parte do seu rendimento atrelado à inflação. O IPCA acumulado em doze meses está em 4,58%, e o último resultado mensal foi de 0,82%. Para entender melhor como a deflação pode afetar seus investimentos, vale a leitura do artigo sobre IPCA negativo e deflação.

Esses dois indicadores, Selic e IPCA, formam a base sobre a qual o mercado precifica os títulos públicos diariamente. Pequenas mudanças nas expectativas sobre o futuro desses índices já são suficientes para movimentar o preço de títulos longos de forma relevante. Quem quiser acompanhar a evolução da taxa básica de juros pode consultar a Taxa Selic Hoje: valor atual, Copom e impacto nos investimentos e a Tabela Selic e calendário do Copom, que trazem o calendário das próximas reuniões do Copom.

Vale lembrar que o CDI, usado como referência em CDBs e fundos de renda fixa, também reage ao mesmo cenário de juros. Atualmente, o CDI está em 13,65% ao ano, e o CDI de um dia útil, em 0,05%. Quem quiser entender melhor esse indicador pode visitar o conteúdo sobre CDI hoje.

Como lidar com a volatilidade na renda fixa

A boa notícia é que a marcação a mercado só importa de verdade se você vender o título antes do vencimento. Caso você mantenha o papel até a data combinada, recebe exatamente a rentabilidade contratada no momento da compra, somada à variação da inflação no caso do Tesouro IPCA+. As oscilações de preço no meio do caminho são apenas um retrato temporário do valor de revenda.

Por isso, alguns cuidados ajudam a reduzir o desconforto causado pela volatilidade da renda fixa:

  • Escolha o vencimento do título de acordo com o prazo em que você realmente pretende usar o dinheiro, evitando a necessidade de venda antecipada.
  • Para reservas de emergência ou objetivos de curto prazo, prefira títulos pós-fixados atrelados à Selic, que sofrem menos com a marcação a mercado. O artigo sobre Tesouro IPCA+ ou Tesouro Selic: Qual Escolher em 2026? ajuda nessa escolha.
  • Para objetivos de longo prazo, como aposentadoria, encare as oscilações do Tesouro IPCA+ como parte natural do caminho, sem olhar o extrato com ansiedade todos os dias.
  • Diversifique entre vencimentos diferentes, de modo que nem todo o seu dinheiro fique exposto ao mesmo risco de prazo.
  • Compare também as opções prefixadas, como descrito em Tesouro Prefixado: o que é e vale a pena em 2026?, que têm uma lógica de precificação parecida, mas sem o componente da inflação.

Quem quiser simular diferentes cenários antes de investir pode usar a Simulador de Renda Fixa ou a Calculadora do Tesouro Direto, ferramentas que ajudam a visualizar como prazo e taxa afetam o resultado final de uma aplicação.

Outro ponto importante é lembrar que o Imposto de Renda incide sobre o ganho de capital na venda do título, seguindo uma tabela regressiva que diminui conforme o tempo de aplicação aumenta. Para entender como esse desconto funciona na prática, a Calculadora de imposto de renda na renda fixa permite simular o imposto devido em diferentes prazos de resgate.

Vale a pena vender antes do vencimento

Em alguns casos, vender um título antes do prazo pode até ser vantajoso, especialmente se as taxas de juros caíram desde a compra e o preço do papel subiu bastante. Nessa situação, o investidor consegue embolsar um ganho adicional, superior ao que teria recebido apenas com os juros contratados, caso decida realizar o lucro vendendo o título antecipadamente.

Por outro lado, vender justamente quando as taxas subiram significa realizar um prejuízo que, muitas vezes, seria revertido caso o investidor tivesse paciência para esperar o vencimento. Essa é a armadilha mais comum entre investidores iniciantes: olhar o extrato em um momento de queda e resgatar por medo, transformando uma perda apenas no papel em uma perda real e definitiva.

Antes de decidir vender um título com prejuízo aparente, vale perguntar:

  1. Eu realmente preciso desse dinheiro agora, ou estou vendendo só por desconforto com a oscilação?
  2. Esse título ainda faz sentido para o meu objetivo original, ou minhas necessidades mudaram?
  3. Existe uma alternativa de investimento claramente melhor para onde eu possa realocar esse dinheiro?

Se a resposta para a primeira pergunta for não, geralmente a melhor estratégia é manter o título até o vencimento e deixar a marcação a mercado seguir seu curso natural, sem interferir. Para quem está pensando em quanto esse tipo de aplicação pode render ao longo do tempo, vale conferir o conteúdo sobre Quanto rende R$ 1.000 no Tesouro IPCA+ e também o artigo sobre quanto rende o Tesouro Direto.

Perguntas frequentes

Marcação a mercado significa que vou perder dinheiro?

Não necessariamente. A marcação a mercado apenas reflete o preço de revenda do título a cada dia. Se você mantiver o papel até o vencimento, recebe a rentabilidade contratada, independentemente das oscilações registradas ao longo do caminho.

Todos os títulos do Tesouro Direto sofrem marcação a mercado da mesma forma?

Não. Títulos pós-fixados atrelados à Selic sofrem bem menos com esse efeito, já que seu preço tende a acompanhar de perto a taxa básica de juros. Já títulos prefixados e indexados à inflação, especialmente com vencimentos longos, apresentam oscilações bem mais acentuadas.

Como sei se o preço do meu título subiu ou caiu por causa da marcação a mercado?

O extrato do Tesouro Direto mostra diariamente o valor atualizado de cada título. Comparando esse valor com o preço pago na compra, ajustado pela rentabilidade contratada até o momento, é possível perceber o efeito da marcação a mercado sobre o saldo exibido.

A marcação a mercado também existe em CDBs e LCIs?

Sim, especialmente quando esses papéis são negociados no mercado secundário antes do vencimento. A maioria dos investidores, porém, mantém CDBs até o prazo final, o que reduz a exposição prática a esse efeito nesses produtos.

Vale a pena evitar o Tesouro IPCA+ por causa da volatilidade?

Não é necessário evitar, desde que o prazo do título esteja alinhado ao seu objetivo financeiro. Para quem busca proteção contra a inflação no longo prazo, o Tesouro IPCA+ continua sendo uma opção relevante, desde que o investidor esteja preparado para conviver com oscilações de preço no meio do caminho.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura, e todo investimento em renda fixa envolve riscos que devem ser avaliados de acordo com o perfil e os objetivos de cada investidor. Para aprofundar seus estudos, explore outras ferramentas e calculadoras disponíveis em Todas as ferramentas e continue acompanhando o blog “O Investimento Certo”.

Compartilhe este artigo

Pedro Fagundes

Pedro Fagundes

Autor do canal O Investimento Certo no YouTube

Educador financeiro, investidor de renda variável desde 2010, possui MBA em Investimentos e Private Banking e certificação CPA 20 da Anbima. Atualmente possui o canal O Investimento Certo no Youtube, que possui como uma das suas principais missões ajudar e transformar a vida de milhares de pessoas que hoje encontram-se com pouco conhecimento sobre finanças através dos seus materiais e conhecimentos ensinados de forma gratuita e simplificada.

Leia também

Foto do topo ilustrativa, de banco de imagens.